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domingo, 27 de maio de 2012

Entre Sierras y Reynas

Modéstia é uma coisa que não se encontra em qualquer esquina. É fácil encontrar quem goste de se autocongratular e elogiar, e raras são as pessoas que nos deixam elogiá-las.
Na semana passada estive em Cordoba, na Argentina, num Congresso sobre Gênero.
Por entre suas serras, seus cachimbos, seus lomitos e humitas, a cidade cordial deixou memórias das quais tenho a certeza de que sentirei falta.
Por entre suas igrejas, faculdades, parques e fontes, a cidade dos leitores e das livrarias, imprimiu em minha vida marcas que vão desde o âmbito pessoal ao acadêmico.
Querendo arriscar na apresentação do trabalho, já que foram mais de 1930 km de distância, rasguei meu espanhol - metade neologismo (professora geralmente tem licença linguísitica) e metade português - , conversei, e ouvi muito sobre gênero. Sobretudo vi e ouvi sobre Reyna Carranza, nas palavras dela mesma.
Colocando em questão correntes literárias e crenças da academia, Reyna falou sobre suas personagens, construídas com tanto afinco; sobre a própria Reyna, e por que não dizer sobre a Reyna personagem, marcada pela condição cultural, política e social; falou sobre a Reyna mulher, tão feminina, tão feminista.
E depois, ah, depois, depois, de tudo o que ouvi sobre a Reyna; depois de ganhar dela um bem dos escritores autografado “com o meu afeto, para Andreia e Luis”; depois de guardar o momento com fotos e sorrisos; depois de chegar em casa, ainda leio no meu mural do facebook a Reyna me dizer que Luis e eu enriquecemos o seu evento.
Por estas e outras é que Córdoba está no meu ranking de cidades preferidas. Porque a cidade, descomprometida e modesta, escondida por entre as serras, abriga e preserva relíquias e pessoas tão cheias de virtudes e valor.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Boas noites


Na noite passada, querendo pegar no sono quando o sono não quer ser pêgo, fiquei deitada na cama dividida com o marido, pensando nas mudanças que ocorrem, assim, de um dia para o outro.
Fiquei imaginando... um dia, você pode ter o melhor emprego do mundo, no outro, precisar de auxílio de alguém pras contas do mês.
Em um dia, você pode ser uma pessoa honesta com anos de construção de sua boa índole, no outro pode ser moralmente devastado por um comentário qualquer.
Em um dia, você pode ter a sua família junto, no outro, parte dela pode não mais estar.
Em um dia, em um minuto, em um segundo, a vida pode dar uma reviravolta da qual nunca mais se esquece.
Mas se a vida pode mudar completamente, pode mudar pra melhor.
Faço questão de dizer ao marido diariamente sobre o quanto ele tem mudado a minha vida para melhor.
Num dia eu era filha e irmã. No outro me tornei esposa e mãe.
Faço, hoje, coisas que nunca achei que faria: Se preciso, levanto cedinho, antes do marido pegar a estrada - coisa que acontece sempre -, faço café, ovos mexidos, torradas.
À noite, cozinho aquilo que ele tiver vontade de jantar. Se não souber, ligo pra mãe, sogra, apelo para o google. E faço. Não porque eu ache que, sendo esposa, eu deva fazer, mas porque esse marido merece. Faço o que puder. Faço o que estiver no alcance. O marido merece. A mudança merece.
Na noite passada, querendo pegar no sono quando o sono não quer ser pêgo, fiquei deitada na cama dividida com o marido, pensando nas mudanças que ocorrem, assim, de um dia para o outro.
Ouvindo o ressonar do marido bem ao lado, em pensamento, comecei a agradecer a Deus pelas boas mudanças. Que elas aconteçam sempre, que venham acompanhadas de bons encontros, de boas noites de sono, de bons pratos à mesa.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Menina Moça


Eu, que nunca pensei em ter filhos – nem que sim, nem que não - talvez porque a maternidade nunca pareceu combinar com o meu jeito nada coordenado e pouco responsável, ganhei, no último ano, uma filha linda e moça.
Preocupada com o que devo fazer ou não, com o que ela mereça, com o que não mereça também, fico, às vezes, pensando em como ela me vê, se está feliz, se estou somando, estando por perto.
Penso isso porque de algumas coisas que dizem respeito a ela eu participo, e de outras não, como por exemplo, a tarefa. Geralmente ajudo pouco com a tarefa da escola. Ela é responsável e nasceu de tarefa pronta.
Tampouco colaboro com o estudo. Ela estuda sempre, estuda muito, reproduzindo na fala o conselho do pai de que "as matérias nas quais temos mais dificuldades são aquelas para as quais devemos mais nos dedicar".
Tenho pouco jeito, também, para os jogos que ela joga: Banco Imobiliário e War foram, e sempre serão, desafios para a minha mente nada estratégica e muito filosófica.
No último domingo, porém, fiz uma descoberta, e as minhas dúvidas quanto à natureza da minha participação, de certa maneira, se dissiparam.
Enquanto eu, no banheiro, me preparava para um passeio a três, com direito a pizza, ouvi a porta do quarto abrir de maneira estabanada. Pelo espelho, encontrei-a com a cabeça entre a porta e a parede, e os olhos curiosos em busca de algo. Sem encontrar, dirigiu-se, com pressa, ao meu marido:
- Pai, a Andréia vai de salto?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Memórias educadas


Há quem acredite que aquilo que fica em nossa memória, e que nos forma como pessoa, pode se tornar, ou pode, talvez, nos tornar obsoletos.
Eu, porém, discordo.
Hoje cedo, passando por uma estrada desconhecida, vi uma pousada pendurada na encosta de uma montanha. A "Pousada da Vovó Ana" tinha cara, cheiro, aparência, de coisa de vó.
Tenho muito apreço para com aquilo que consideramos como coisa de vó. Uma pitada de velharia é tão importante quanto a modernidade do tempo presente.
Acredito, por exemplo, na eficiência de uma educação tradicional - não severa, mas exigente! - na escola, em casa, fora delas também, por que não.
Acontece que a minha crença neste sistema deve mesmo estar por fora.
Tenho assistido a algumas mudanças na educação que cortam meu coração e varrem por agua abaixo grande parte daquilo que aprendi como ensinadora.
Sâo mudanças que eliminam o contato entre as pessoas, que minimizam experiências que podem ser trocadas entre elas, que massacram com as expectativas e planos de quem se preparou pra ser doador de tudo o que tem. Acho impossível, depois, cobrar humanidade, menos frieza e mais consideração das pessoas, quando as relações propostas pela educação tem, de certa maneira, abolido com a idéia de coletividade.
Espero eu que os resultados venham a muito longo prazo, ou não venham, porque o que se planta, quase sempre se colhe.
Não tenho certeza se estou, ainda, certa ou errada. Sei que não mais vou me torturar por escolher, muitas vezes, querer morar dentro de uma realidade que, aos poucos, nem mais me pertence.
Acompanhada das minhas memórias de uma época em que avós tomavam tabuadas enquanto os pais trabalhavam, das minhas expectativas e investimentos carregados até agora, vou pagando - e quase não recebendo - pra ver onde é que iremos todos parar...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Com barba e regado a café.


Me considero hoje uma pessoa menos medrosa, de menos pudor. Arrisco o quanto puder, brinco mais, sofro menos, aproveito melhor e ao máximo tudo o que é risível.
Ontem ao final da tarde, meu pai, que fala pouco, compartilhou comigo uma idéia. Ano que vem, 2012, meu avô, pai dele, falecido tão cedo, faria 90 anos de idade.
Querendo lembrar, querendo comemorar quem deveria estar e não está mais, meu pai quis montar um livro com contos sobre o pai. Me perguntou se eu poderia ajeitar a redação, deixar mais doce, talvez mais poético, histórias sobre o meu avô, que passaram tão rapidamente, tão ásperas e que andam por aí sem poesia nenhuma.
Gostei da idéia e fiquei disposta a tentar. Antes, porém, de organizar e brincar com as idéias do meu pai, pensei em brincar com as minhas. Pensei em trabalhar com as lembranças que eu tinha de um avô pouco peculiar.
Escondido atrás dos óculos de armação marrom estava o meu avô de nome de rocha. A fronte era calva, a testa franzida e sisuda, e os cabelos caíam grisalhos e despenteados nas laterais apenas, por cima das orelhas.
Meu avô era grande e forte.
Sempre com um par de calças jeans sujos de trabalhar no sítio, botinas em tom de marrom, quando deveriam ser amareladas, e a camisa entreaberta, passava horas sentado, ao final da tarde, em frente à casa, observando o movimento que aumentava e diminuía conforme as horas se passavam.
Quando o meu avô se foi, eu era, assim, muito nova. Tive pouco tempo de avô Pedro, além de ter desenvolvido um certo medo e respeito excessivo em relação ao avô alto, forte, sisudo e de poucas palavras – de onde vem as poucas palavras do meu pai.
Mas guardo bem o jeito dele de provocar a nós, netas. Com a barba sempre por fazer, meu avô nos abraçava e lixava as nossas bochechas o quanto pudesse, até que nossos gritos chegassem até a avó, e dela partisse o socorro.
Me lembro também da primeira frase que eu ouvia do meu avô quando o motor da caminhonete c10 azul desligava na garagem: - Délia – a avó – tem café?
As lembranças são poucas, fragmentadas, e passeiam perdidas pela minha mente quando resolvo virar criança novamente.
Gostaria de poder hoje, hoje que me considero mais abusada e menos pudorosa, enxergar melhor o meu avô que ficava escondido atrás dos óculos e das botinas sujas de barro.
Queria rir mais, provocar de volta, talvez dar o troco em forma de cócegas ou mordidas ao invés de pedir socorro, querendo converter o rosto sisudo do avô em sorriso.
Se fosse possível hoje, eu contava pra ele que é só chegar o fim-de-tarde e eu descubro que não sei ficar sem café, eu e meu pai.
Contava também sobre o meu pedido incansável para que meu noivo deixe de fazer a barba sempre que pode, porque eu amo barba por fazer, e nunca peço socorro.
Eu contava tanta coisa e faria tudo tão diferente se fosse hoje... mas hoje só posso esboçar as linhas do pensamento para as do papel. Enquanto isso, vamos preparando os contos de aniversário. E que venham os 90 anos do avô Pedro!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Casinha...


Neste último fim-de-semana, enquanto separava, um a um, meus livros infantis, fazendo a mudança para a casa nova, casa de noiva, me encontrei com um de meus livros de infância preferidos: Luciana em casa da vovó.
No livro, Luciana passeia por entre as roseiras da avó, come das frutas do pomar, experimenta das delícias feitas pela avó cozinheira, e brinca de brincadeiras que só se brinca em casa de vó.
Acontece que eu me achava muito parecida com a Luciana. Como eu, ela ela amava brincar de casinha com as coisas da casa da avó, amava as brincadeiras que brincava por lá, tanto que andei exigindo da família a permuta de nome. Só atendia se me chamassem de Luciana.
Penso que minha avó, dona da casa que eu, como a Luciana, amava frequentar e brincar, ia hoje poder frequentar a minha casa nova.
Sei que ela iria amar...
Sei que ela adoraria saber que o anel que ela me deixou há 12 anos, pouca coisa antes de ir, tornou-se no dia 4 de junho o meu anel de noivado.
Imagino minha avó, costureira, me ajudando a escolher os detalhes das toalhas de linho da sala, palpitando sobre as capas das almofadas, encantada com as cortinas de lese para o banheiro.
Hoje não me chamo Luciana e penso que tive pouco tempo de casa de vó. Mas ainda que não possa mais admirar as roseiras da minha avó, estou muito feliz, porque vou ser a dona de um lindo jardim de agapantos. Ainda que não possa mais comer de uma imensidão de frutas no fundo do quintal, agôo com frequencia uma linda jabuticabeira num vaso muito bonito. Ainda que eu não saiba fazer bolinhos de chuva, pastéis, ou bolos como ela fazia, confesso que estou cometendo minhas primeiras ousadias na cozinha.
Tenho estado assim, esperançosa, porque meus dias de brincar de casinha estão, finalmente, de volta.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

TPM ou paixão – ou os dois, e por que não?


Não sei se sou uma boa contadora de histórias. Não sei se sei ser engraçada ou não, se minhas ênfases são pertinentes ou não, não sei se sei.
Mas um dia desses, me propus a contar a um amigo, uma história que me aconteceu quando criança. É na verdade uma história sobre uma história:
Minha mãe, que me comprava muitos livros de contos de fada - que eu sempre amei ler - chegou em casa em um fim de tarde, com o livro “A sereiazinha”, da Coleção Contos de Andersen.
O livro era lindo, capa roxa, grande, e me atraiu instantaneamente. Ainda sem ler, comecei a folhear o presente, reparando nas ilustrações.
A sereia sentada na pedra, a sereia com os cabelos trançados, a sereia com a cauda em movimento pelas águas do oceano... a sereia, que sempre foi uma fantasia das meninas pequenas... Ainda me lembro que bastavam dois minutos na piscina do clube com as amigas para cruzarmos as pernas imitando uma cauda e sairmos nadando, imitando as sereias.
Continuei folheando o livro, até que me encontrei com a ilustração do príncipe.
O príncipe. Ahh, o príncipe, que decepção! As coxas eram extremamente grossas e o pescoço também. A cabeça, uma esquisitice: minúscula, láá no topo do pescoço.
O príncipe me pareceu feminino demais, e além de tudo, feio! Isso era inconcebível! Um príncipe feio!? Em nenhum outro livro de contos de fadas eu havia visto um príncipe feio! E fechei o livro.
Não li. Nunca mais. Até hoje, talvez uns 18 anos depois, ele continua morando na estante do escritório, fechado, guardando só pra ele a história de uma moça-peixe que foi condenada a viver embaixo da água com um príncipe quadrilzudo e de cabeça pequena.
A verdade é que, depois, levei aaaanoss aprendendo que os príncipes não eram necessariamente bonitos. Ou não eram necessariamente perfeitos. Era possível que eles tivessem um defeito ou outro...
Acontece que em um período curto de tempo, recentemente, fui obrigada a me esquecer de meu longo aprendizado sobre a realidade dos príncipes, e achei isso tão importante, que não pude deixar de compartilhar.
Meninas: existem, sim, príncipes perfeitos como os dos contos de fadas.
Eles são lindos, maravilhosos, gentis, atenciosos e nascidos para surpreender, todos os dias, pela manhã, pela tarde, pela noite, garotas como nós, leitoras de contos de fadas, justamente quando nossa crença nestas histórias maravilhosas estavam a esmaecer.
Sem saber se sou boa em contar histórias ou não, sem saber se esta crônica nasceu em da sensibilidade à flor da pele resultante da TPM ou se foi paixão, - ou os dois, e por que não? - uma coisa eu não deixo de contar, e recomendo que as meninas que encontrarem esses protagonistas dos contos de fadas, também não deixem:
Nunca deixe de contar, de lembrar o seu príncipe de que ele é especial, de que ele é único, de que ele é, de fato, um príncipe.
Eu não deixo!: “Já te disse hoje que você é um príncipe?”